O mapa da destruição
Praticamente 10 dias após a tragédia de 12 de janeiro, ainda no clima de desilusão, tristeza, dor pelas mais de mil mortes (as autoridades divulgam 492), escrevi este texto que foi vetado pela editoria do Jornal A voz da Serra, onde trabalho há 21 anos. Enquanto durante o dia, me ocupava com campanhas, visitas ás áreas destruídas (e eu fui aos 40 locais, por terra e pelo helicóptero da Marinha do Brasil) quando cheguei em casa, ainda muito abalado, abri a Bíblia e me caiu no colo o trecho de Isaias 43, 10. Pensei, refleti e fiz o texto abaixo.
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Fomos escolhidos
Analisando o trecho bíblico Isaias 43, 10, “vós sois minhas testemunhas, diz o Senhor, e meus servos que eu escolhi, a fim de que se reconheça e que me acreditem”, podemos chegar à conclusão que nós, friburguenses que ficamos, fomos escolhidos por Deus para ficar nesta terra e continuar seu Evangelho vivificador.
Evidentemente que psicologicamente para as milhares de famílias que perderam todos os bens materiais e outras milhares que perderam entes queridos é difícil se recuperar, pois a dor é muito forte e vai ficar sempre a saudade dos que se foram.
É público e notório que precisamos ser fortes, reagir, reerguer-se, recuperar-se, pois o ‘tsunami’ de mais de 300 milímetros de chuva que caiu na cidade na madrugada de 12 de janeiro, destruiu bairros inteiros, dizimando belezas naturais, pontos turísticos famosos, condomínios e vidas que nos eram muito queridas.
Mas Deus nos escolheu. Deus nos permitiu ficar e nós temos que seguir seu Evangelho, praticá-lo, ajudar a reerguer esta cidade, nos empenharmos pelas famílias que estão na solidão. Deus nos escolheu para sermos seus discípulos do amanhã e contar essa história trágica, mas que no fundo serve de sinal para os tempos, pois o homem se destrói a si próprio.
Deus nos escolheu para juntos sermos o sal da terra, a pedra angular de sua criação que vai fazer de Nova Friburgo uma nova Jerusalém eterna que ainda vai dar muitos frutos.
Não se pode culpar Deus pelas tragédias no mundo inteiro, especialmente as climáticas. Deus não pune ninguém. Deus é amor, fé, perdão, mas o homem se pune à medida que ele desmata, destrói as belezas naturais, derruba encostas, faz com que a natureza seja violentamente agredida.
O homem se pune à medida que ele abandona Deus, no momento em que se envolve com a avareza, luxuria, pecado, sexo descontrolado, vícios e etc. O homem se condena quando ele diz: “Não tenho tempo para ir a missa, orar, ir ao culto, dedicar, 15 minutos por dia para conversar com o Criador”, mas tem tempo para se reunir com os amigos para a cervejinha da tarde, a partida de futebol, a novela das oito, o Big Brother Brasil, a traição no matrimônio, a ganância pelo poder, a falta de humanidade com o próximo, etc.
Tem muita gente falando em carnaval. Com certeza teremos carnaval, mas o carnaval da oração, da reflexão, do pensamento positivo em favor da cidade. O carnaval da solidariedade às famílias que precisam de ajuda para se reerguer. O carnaval do irmão que ficou ileso e se ressente dos irmãos que Deus levou. Teremos um grande carnaval de amor ao próximo.
Diante disso, temos que repensar nossa vida, porque ficamos, porque fomos escolhidos para refazer nossa cidade, outrora tão bela e acolhedora, hoje devastada, entristecida, acabada, aviltada. Fomos escolhidos por Deus para dar testemunho do “SIM” de Nossa Senhora, para continuar a obra evangelizadora de Jesus Cristo.
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Para onde vamos? O Que Queremos?
Hoje, nove meses depois temos a certeza que realmente Deus está conosco. Quanto a isso não tenho a mínima dúvida. Deus realmente é Pai e nos escolheu, porque da parte daqueles que tem o dever de defender o povo, pois foram eleitos para isso, não há nada.
Chegando no meio do mês de outubro, Nova Friburgo, a Suiça Brasileira, a ex-cidade dos cravos, a “ Parada de Um Caminho a Caminho do Céu” como disse o poeta J.G de Araujo Jorge, continua esquecida por quem deveria ser o primeiro a lembrar. uma limpeza aqui, outra obrinha ali, festas, coquetéis, dezenas de espaços na mídia geral, e só. Realmente somos meramente bibelôs que quando não servimos mais somos tirados de prateleira e descartados no lixo.
O medo continua, basta chover um milímetro para a população entrar em pânico, levantar móveis, subir para andares mais altos, sair de casa e etc. Esta manha, praticamente 70% da cidade interrompeu seu sono por volta das 5h da madrugada, quando a chuva caiu forte. Foram apenas 3 milímetros entre 5 e 6h30 da manhã de terça-feira, mas o pânico foi geral. Aí nos lembramos do Salmo 22 “ O Senhor é meu Pastor e nada me faltará”. São nestes momentos de aflição que cada vez mais o Salmo 22 é a verdadeira prova que Deus não abandona seus filhos
Na tarde desta terça, 11, quando fui ao Friburguense cobrir jornalisticamente o treino para o jogo de amanhã, conversei longamente com os jogadores e um deles, que prefere não se identificar, mora em Conselheiro Paulino e que na tragédia teve sua casa invadida pelas águas em mais de um metro e meio, disse “olha tenho medo, nada foi feito, fizemos obras na nossa casa, mas a Prefeitura não fez nada no bairro, o rio continua obstruído, só Deus pode nos salvar se as chuvas de fim de ano forem muito intensas" afirmou o atleta.
E temos que nos ater novamente á Bíblia, em São João14, 15 – 14 (em verdade vos digo, tudo que pedires ao Pai, vô-lo farei, qualquer coisa que pedires em meu nome, vo-lo farei. Se me amas, guarda os meus mandamentos). Este é o retrato fiel do povo friburguense hoje, somente Deus é a esperança
A verdade é que o Reino de Deus não vem ostensivamente. Nós temos que olhar a imagem da Virgem Maria e do Cristo Ressuscitado e se espelhar nelas. É nossa função acolher a vida, que Jesus obteve para nós através da cruz. Acolher a vida humana que é um dom precioso que recebemos de Deus como presente.
Não podemos viver essa vida egocêntricamente, pensando somente nos momentos de lazer, na cerveja que vamos tomar no bar, o futebol de domingo, a novela da televisão, esquecendo que a terra que pisamos nos foi dada gratuitamente por Deus.
As montanhas que nos circundam são nossa cortina de fé que nos une ao amor. Os animais, as plantas, e todo meio ambiente que nos cerca. Nós somos responsáveis por isso tudo.
Deus fez a parte dele, mas nós temos que fazer a nossa, trabalhar, lutar, procurar lugar correto para construir nossas casas dentro da regularidade da lei, pressionar nossas autoridades para que pensem no ser humano que os colocou no poder.
Deus preparou para nós como que um berço, essa terra, outrora denominada “Morro Queimado”. Nossa Senhora abençoou este lugar com sua graça, e como ela, temos que dar o nosso “Sim”, mas um sim verdadeiro, com trabalho, verdade, amor ao próximo, fé, sinceridade. Se os governantes nos esqueceram, vamos virar o jogo e força-los a fazer o que tem que ser feito.
Nesse tempo de “ Teresas Cristinas “, “Big Brothers”, “Rock In Rio” e outros falsos ídolos que a televisão nos impõe pela janela, é o momento de lembrar de São Marcos 2, 27 e 28 (o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado).
´ É hora de reagir. Evidente que nós povo de Deus que caminha neste mundo, não temos poder para mudar a história, mas temos fé e força divina para passar pela terra e não deixar a terra passar pela gente. Temos que estar cientes que nossa missão é mais ampla como vemos em Isaias 43, (nós somos testemunhas porque fomos escolhidos por Deus).
Se a cidade ainda tem 240 áreas de risco, mais de 100 encostas nos amedrontando, lixo nas ruas, bueiros entupidos, obras inacabadas, pagamento de aluguel social indefinido, mais de 500 pessoas ainda alojadas em abrigos públicos, casas populares prometidas e não construídas, também temos culpa, porque não sabemos fazer valer nosso direito de eleitor, contribuinte, cidadão e acima de tudo, filhos amados do Pai, escolhidos por Deus. Finalmente, é preciso pensar, refletir, definir e responder: Senhor, O que queres de mim?
Um dos maiores símbolos da cidade, o Morro da Cruz, merece cuidados especiais


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