7 de março de 2012

A vida da Vida.

"E se Vida tivesse ido antes à Delegacia? Se tivesse tido a coragem de denunciar o primeiro tapa, talvez não estivesse ali, na delegacia, a dar de mamar algemada pelos pés "
Vida estava assustada, sem entender bem o que lhe acontecia naquela delegacia. Algemada pelos pés, para que pudesse ter as mãos livres para amamentar o menor dos seus três filhos que, assim como ela, olhavam assustados aquelas pessoas com roupas de polícia. Pessoas estas que, da mesma forma que eles, também não sabiam o que pensar ou como agir diante de uma cena tão deprimente e desumana.]

No entanto, Vida era a ré, a culpada de ter ateado fogo ao marido. Um marido que vinha, ha muitos anos, deixando marcas não tão visíveis em seu corpo já deformado pelas gravidezes e má alimentação. Um marido que deixava as mais profundas marcas das algemas machistas em sua alma e nas das pequenas crianças. E assim, aconteceu o fato.

Talvez nem tivesse sido numa daquelas brigas cheias de tapas e xingamentos, talvez tivesse sido apenas um olhar, ou um sorriso debochado, aquele olhar ou sorriso que dá início a uma série de sofrimentos cruéis. Um olhar ou um sorriso que foi determinante para a atitude dramática ante a insurportabilidade do sofrimento. Vida, então, pegou o frasco de álcool que estava perto e quecombinado com um fósforo, foi o bastante para fazer do seu companheiro uma chama acesa.
E se Vida tivesse ido antes à Delegacia?

Se tivesse tido a coragem de denunciar o primeiro tapa, talvez não estivesse ali, na delegacia, a dar de mamar algemada pelos pés quase escondidos pelo amontoado feito das crianças adormecidas de cansaço naquele chão frio, após terem presenciado tantas fortes emoções para suas poucas idades.

Com a desesperança de que algo bom aindapudesse acontecer, e com a mente e o corpo anestesiados, Vida olhava para os filhos e apertava o menor ao seio, como se pudesse fazer desse momento um momento melhor,diante dos que lhes seriam os próximos, tanto para si mesma como para aquelas pequenas criaturas adormecidas.
Enquanto isso, a regra e a lei são impiedosas, assim como é impiedoso morar em um lugar que trata as suas custodiadas com a frieza de um relógio que obriga a separar a criança do alimento e calor materno para que a mãe seja levada, sabe-se lá para que lugara pelo menos uma centena de quilômetros de distância. O que é mesmo a que chamam de uma Casa de Custódia Feminina?

E as crianças, foram encaminhadas para onde, alguém saberá dizer? Existe neste município desconhecido um pequeno lugar que seja, aquecido com um pouco de carinho possível, para que essas crianças não repliquem, nem tão mais tarde assim, o modelo dos pais?
Vida e todas as suas marcas mal cuidadas e escondidas pela roupa, foi para o tal lugar bem longe, sem direito a quem a visite, sem direito sequer a ver os filhos, sem direito a ter Direito a uma defesa digna.
           
Seu marido queimado foi cuidado, tratado e amparado legalmente. Vida, com certeza, perdeu toda a sua vida.  Este fato pode ter acontecido ao seu lado, sem você que desse conta, pois não saiu na mídia, não foi revelado nem contado. E ainda existemmuito mais pessoas que se possa imaginar que fazem de tudo para que não se criem políticas que amparem dignamente as custodiadas e seus filhos e filhas.
 Enfim, se o céu é para todos e todas, o inferno e a cadeia também o são.

( Laura Mury - lauramury@fundacaonatureza.org.br. Laura Mury é Professora, Gestora em Direitos Humanos, Diretora do Tecle Mulher-Assessoria e Pesquisa no âmbito dos Direitos da Mulher; Presidenta do COMSEA-NF; Presidenta da Rádio Comunidade Friburgo; Coordenadora Geral da Fundação Natureza e Membro da AFI.
                         Laura Mury

Nenhum comentário: