Professor
de judô recebeu homenagem no último dia 6
Vinicius
Gastin
Com apenas
seis anos, ainda no Japão, Takashi Yamaguchi aprendeu a arte de massagear. Aos
22, chegaria ao Brasil para começar a sua vida no esporte, através do judô.
Hoje, aos 77 anos, não dá mais aulas, tampouco atende a clientes. A isquemia
que sofreu limita os movimentos e a fala. No entanto, a sabedoria adquirida e
repassada a centenas de pessoas não sofreu qualquer tipo de dano, e teve
recentemente o merecido reconhecimento.
No
último dia 6, o mestre de judô foi homenageado pelo Conselho Regional de Acupuntura
do Estado do Rio de Janeiro, Craerj, em cerimônia realizada na Alerj
(Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro). Uma comitiva de parentes
e amigos acompanhou Yamaguchi e a esposa Midori. Além dele, outras nove pessoas
foram lembradas por serem os precursores da acupuntura no estado. Emocionado ao
receber o prêmio, lembrou de uma das muitas situações que vivera. “Na minha
época, as pessoas que lutavam judô aprendiam a fazer massagem e acupuntura.
Ainda no Japão, com 16 anos, salvei a vida de uma mulher, que se afogou,
através de massagem. Consegui reanimar a moça, que já tinha sido declarada
morta.”
Vida
difícil no Japão e chegada ao Brasil
Takashi
Yamaguchi nasceu em 15 de novembro de 1935, no Japão. Sob orientação da tia,
teve as primeiras aulas de aplicação de massagem, aos seis anos de idade, uma
prática comum naquela época. Durante a infância, teve de conviver com todas as
dificuldades que a 2ª Guerra Mundial proporcionou. A família deixou o Japão por
um tempo e, quando retornou, encontrou uma Tóquio destruída. Todas as
plantações haviam sido queimadas após a derrota japonesa. Yamaguchi passou fome
e, para sobreviver, comeu até mesmo os insetos encontrados nas plantações de
arroz.
Aos
16 anos, ainda na terra do Sol Nascente, foi trabalhar em uma empresa de peças
de navio, a Tokyo Keik, onde um ex-capitão da marinha japonesa dava aulas de
judô. Mifune Kysoo ensinava várias práticas para tratamento de traumas e
problemas de saúde. A partir dali, surgiram o interesse e a dedicação à
acupuntura e massagem. Contratado para ensinar o judô em uma colônia japonesa
de São Paulo, Yamaguchi chegou ao Brasil em 1957, com 22 anos de idade. Viveu
durante algum tempo em Campos do Jordão, onde conheceu Midori Yamaguchi, e
mudou-se para Papucaia. No município fluminense, pensou em desistir do judô.
“Ele abandonou essa área de professor, por conta da baixa remuneração. Queria
então ser lavrador. No Japão, trabalhou como torneiro mecânico e veio para o
Brasil com o desejo de montar uma fábrica. A gente programa as coisas de um
jeito e acontecem de outro”, contou Midori.
Yamaguchi
constrói academia em Nova Friburgo
O
destino levou Yamaguchi de volta ao mundo esportivo. Cinco anos mais tarde, já
casado, transferiu-se para Cachoeiras de Macacu. Em 1971, chegou à Nova
Friburgo e iniciou a prática das artes marciais na Sociedade Esportiva
Friburguense (SEF). Dois anos depois, trouxe a esposa Midori e inaugurou o
próprio espaço. A academia Sol Nascente, hoje na Rua José Maria Raminelli, Ponte da Saudade, foi construída com a ajuda
de alunos. “Cerca de 30 pessoas se reuniam todos os fins de semana e trabalhavam
com a gente. Apenas alguns faziam o serviço de verdade. A maioria gostava do
churrasco, das bebidas, da festa”, divertiu-se ao contar.
A
academia cresceu e foram inauguradas filiais em Cachoeiras de Macacu e Bom
Jardim. Desde então, Takashi Yamaguchi voltou apenas uma vez ao Japão, em 1990,
quando levou uma lembrança para homenagear seu antigo professor. No entanto,
Mifune Kysoo já havia falecido. “São coisas da vida, a gente tem que relevar”,
disse.
Yamaguchi
mora na casa construída embaixo da academia, e nela acumula honrarias por tudo
o que fez. A próxima homenagem deverá ser feita pela Colônia Japonesa do Estado
do Rio. Nada mais justo. Apesar das marcas do tempo, a bela história construída
pelo professor permanecerá intacta para sempre.


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