25 de janeiro de 2013

Adiamento da definitiva entrada em vigor do acordo ortográfico frustra projeto da ABL de oficializar o idioma nas Nações Unidas O



Após sua primeira reunião deste ano, Diretoria da ABL divulga nota
oficial e reafirma a importância da lusofonia, um idioma falado por
mais de 260 milhões, no cenário internacional

O adiamento para 2016 da definitiva entrada em vigor do Acordo
 Ortográfico da Língua Portuguesa frustrou o projeto da Academia
 Brasileira de Letras (ABL) de desenvolver um amplo movimento para que
 o idioma passasse a ser adotado como língua de trabalho oficial na
 Organização das Nações Unidas (ONU). A Diretoria da ABL, em sua
 primeira reunião deste ano, divulgou hoje, quarta-feira, dia 23 de
 janeiro, nota lamentando a decisão e afirmando que, nos primeiros dias
 de 2013, tão logo a obrigatoriedade da unificação ortográfica passasse
 a vigorar plenamente, levaria essa demanda também a todos os
 organismos internacionais.

Ainda segundo a nota, não haveria mais desculpas para que os fóruns
 oficiais de política exterior continuassem a passar ao largo de um
 idioma de mais de 260 milhões de falantes, a pretexto das
 discrepâncias de grafia entre os países que compõem seu universo.
 “conseqüência lógica da simplificação da escrita consagrada no Acordo
 seria o reconhecimento da crescente importância da lusofonia no
 cenário internacional e o coroamento natural de um longo processo,
 amadurecido sem qualquer açodamento”, afirma o documento. E prossegue:  “Houve bastante tempo e oportunidade para que os descontentes se  manifestassem. É uma pena que tenham deixado para forçar um adiamento  unilateral nas últimas horas do prazo”.

A nota na íntegra:
A ABL E O ADIAMENTO DO ACORDO ORTOGRÁFICO
Nas últimas horas de dezembro, quando o ano de 2012 estava terminando, o governo  surpreendeu o país  com a decisão de adiar para 2016 a  entrada em vigor do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.  Só nos  resta lamentar esse retrocesso – como observou o acadêmico Arnaldo  Niskier em recente artigo.

Nos primeiros dias de 2013, tão logo a obrigatoriedade da unificação
 ortográfica passasse a vigorar plenamente, a Academia Brasileira de
 Letras pretendia iniciar um amplo movimento para que o idioma fosse
 adotado como língua de trabalho oficial na ONU e outros organismos
 internacionais. Não haveria mais desculpas para que os fóruns oficiais
 de política exterior continuassem a passar ao largo de um idioma  de
 mais de 260 milhões de falantes, a pretexto das discrepâncias de
 grafia entre os países que compõem seu universo. Consequência lógica
 da simplificação da escrita consagrada no Acordo  seria um
 reconhecimento da crescente  importância da lusofonia no cenário
 internacional e o coroamento natural de um longo processo, amadurecido sem qualquer açodamento.

 Convém recapitular suas principais etapas. O Acordo Ortográfico da
 Língua Portuguesa foi assinado em 1990. Uma criança então nascida já
 seria hoje  um cidadão adulto. No decorrer do extenso período de
 debates e discussões internas e externas sobre os problemas e as
 diferentes propostas dessa unificação, tal Acordo foi dissecado por
 especialistas, aprovado pelo Congresso de diferentes países,
 sancionado por chefes de estado. Finalmente, o Presidente Lula firmou
 em 2008 um documento decretando que a partir de 1º de janeiro de 2013
 o Acordo entraria definitivamente em vigor no Brasil.

 O país a ele aderiu sem traumas e com entusiasmo, desde  esse momento em 2008, mesmo sem ser obrigatório e sem que houvesse chegado o final  do prazo. Imediatamente, jornais, revistas e livros passaram a  segui-lo. Há quatro anos nossas crianças estão sendo alfabetizadas com o uso dessa grafia e lendo livros e revistinhas que seguem essa  orientação. Centenas de concursos públicos o adotaram, inclusive o  ENEM. Nossas  200.000 escolas o aceitaram – incluindo as do interior –  e  o fato pode ser atestado na Olimpíada de Língua Portuguesa.

A Academia Brasileira de Letras, por decreto presidencial de 1972,
como lembra Niskier, tem, entre nós, “as prerrogativas de ser a última
palavra em matéria de grafia”. Ao longo de todos esses anos, jamais
negou sua colaboração à sociedade, mas sempre procurou ouvi-la
amplamente. O acadêmico Antonio Houaiss, filólogo respeitado no mundo  inteiro, dedicou intensos esforços  e grande parte de sua vida à
cuidadosa construção dessa obra delicada, até ela poder ser
amplamente aceita. Seu trabalho foi continuado pelo acadêmico Evanildo
Bechara, com idêntica dedicação.

Ao longo desse processo, houve bastante tempo e oportunidade para que os descontentes se manifestassem. É uma pena que tenham deixado para  forçar um adiamento unilateral nas últimas horas do prazo. Nem há o  que comentar, os fatos falam por si. Só resta mesmo lamentar.
Academia Brasileira de Letras - Janeiro de 2013

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