19 de maio de 2014

Para onde foi o dinheiro dos seus impostos...

(Aiuri Rebello e Vinícius Segalla)

Quando o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, discursou na inauguração do Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília, em maio do ano passado, a grandiosidade da obra inspirou-lhe uma comparação suntuosa: “Se Darcy Ribeiro dizia que o Brasil é uma nova Roma, só que mais democrática, pois lavada em sangue negro e índio, essa Roma acaba de ganhar seu Coliseu”.

A comparação do estádio brasileiro com a arena romana, cujas ruínas sobrevivem há quase 2.000 anos, talvez pareça exagerada hoje em dia, um ano após a inauguração do Mané Garrincha, já que o equipamento apresentou goteiras e vazamentos generalizados há cinco meses. A cobertura de mais de R$ 200 milhões não apresentou a resistência ao tempo que o Coliseu já provou ter.

No último dia 1º foi inaugurada, a 50 quilômetros da cidade de Juddah, na Arábia Saudita, a suntuosa Cidade do Esporte Rei Abdullah. Ela engloba um estádio de futebol de mesmo nome para 60 mil torcedores, um ginásio poliesportivo para 2 mil, um estádio de atletismo para mil, uma mesquita para 500 fiéis, um estacionamento para 45 mil veículos, quadras de tênis e campos de futebol para treino e recreação, além de uma luxuosa suíte para receber o rei, que empresta o nome ao estádio.

O custo total da obra, de acordo com as autoridades sauditas e com as construtoras foi de 384 milhões de euros, ou R$ 1,18 bilhão. As obras do Mané Garrincha e de seu entorno, que ainda não estão completas, custaram R$ 1,9 bilhão, valor 61% maior do que foi empregado no complexo saudita.

No entorno do Estádio Rei Abdullah, o ginásio poliesportivo climatizado, com suas 2 mil cadeiras numeradas e sistema de wi-fi para todos, as seis quadras de tênis e três campos de futebol, e ainda a mesquita acarpetada, não podem servir de comparação com o Complexo Esportivo Ayrton Senna, dentro do qual está o Mané Garrincha.


No folder de propaganda que o governo do Distrito Federal confeccionou e distribuiu em hotéis e aeroportos, o complexo, que possui quadras de vôlei e basquete, dois ginásios, complexo aquático, um autódromo e até um cine drive-in, está novo em folha. Na realidade, porém, encontra-se praticamente todo em ruínas. Talvez daí tenha vindo a inspiração do ministro Rebelo. 

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