Pedro Toledo
No início do
século XIX, especificamente em 1819, Morro Queimado era talvez o mais próximo
da Europa que o Brasil possuía em termos de relevo, vegetação e possibilidades
ocupacionais. Não demoraria para que, com a necessidade de dilatar a população
caucasiana, Dom João VI não somente autorizou mas estimulou a vinda de europeus
para o território colonial. Neste momento, na Suíça, já se articulava pelas
mãos de Sébastien-Nicolas Gachet, a
vinda de um significativo grupo suíço à colônia portuguesa.
A vinda de 261
famílias suíças excedeu o que havia sido descrito no acordo entre Dom João VI e
o governo suíço. No contrato apenas 161 colonos deveriam imigrar para o
território tupiniquim. A crise econômica
atingiu fortemente o continente europeu, forçando a imigração para a
América. Outro fator para essa diferença no número de imigrantes foi a Doença
da Batata, que destruiu milhares de quilômetros de plantações ao longo do
território suíço.
Sete navios
trouxeram, sem espaço ou higiene, os suíços em direção ao continente
desconhecido. Muito se foi especulado sobre o que encontrariam. O fato é que ¼
dos imigrantes sequer chegou ao território brasileiro. As péssimas condições
dos navios que atravessaram o oceano atlântico causaram a morte de
aproximadamente 500 suíços.
Os sete navios
demoraram aproximadamente três meses para alcançar o continente. O primeiro a
partir da Suíça foi o Daphnée que, sob o comando do capitão Keller, embarcou 197 pessoas, e
entregou em território 31 a menos. Delby-Elisa registrou 25 mortos,
Elisabeth-Marie apresentou 19 mortes e, Urano, foi o recordista, com 107
mortos. Heureux-Voyage, Deux-Catherine e Camillus trouxeram, juntos, 918
pessoas e registraram 129 mortes. O
navio Trajan não deveria ter trazido imigrantes em sua tripulação, pois era um
navio bagageiro, entretanto, 6 passageiros foram trazidos por ele.
Apesar do
apelo material da viagem, os imigrantes suíços trouxeram muito mais do que suas
bagagens. Os desbravadores das novas terras ocupariam a serra chamada hoje, em
homenagem ao Cantão de Fribourg ( de onde vieram os suíços imigrantes), Nova
Friburgo. No complexo processo de entrada no continente americano, os suíços
perderam a cidadania helvética e se tornaram oficialmente súditos da coroa
portuguesa.
O processo
desenvolvido para estabelecer os suíços na nova terra foi muito difícil, e não
bastando isso, a América do Sul sofria com surtos de malária que assolaram os
novos habitantes durante sua inserção no território. Com perseverança, os
imigrantes começaram a cultivar vegetais de diversos tipos e a manter a
produção de queijos, dos quais trouxeram as receitas para o Brasil.
A então Nova
Friburgo disparava rumo ao crescimento econômico e já chamava a atenção pelo
seu potencial, desenvolvido e explorado primeiramente por suíços, e
posteriormente por alemães.
Quase dois
séculos após a colonização, os traços culturais e genéticos da Suíça ainda
estão latentes nos moradores da cidade de Nova Friburgo, em sua maioria
caucasiana de olhos claros. A Suíça foi a matriarca do que se fez hoje um
pedaço do país em outro continente. A colonização de povoamento, que pretendia
evoluir a cidade além dos interesses de consumo de recursos, é visível na
arquitetura, cultura e culinária locais.
No dia
primeiro de agosto comemoramos o dia da Suiça no Brasil e é com gratidão que os
descendentes do povo suiço, trabalhador e aventureiro, saúdam a história e a
cultura que, mesclada com a diversidade brasileira, tornou em uma nova
estrutura, o estreito laço helvetico-brasileiro.
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